sábado, 23 de junho de 2007

O Velho e a Pequena Garota

Prólogo:
Parte I

Um velho está sentado numa pedra no meio do nada, olhando para o nada. Uma pequena garota aparece, vinda de lugar algum para lugar nenhum e vai até o velho. Ela o olha e assim pergunta-o.
- O que você está fazendo? – diz ela despertando pela primeira vez a atenção do velho, que até então não a notara.
- Penso, penso no sentido de tudo aquilo que não faz sentido e quanto tudo isso não faria nenhum sentido se tivesse algum sentido – responde o velho olhando para a garota, analisando-a.
- Isso não faz nenhum sentido – diz a garota.
- Sua afirmação faz muito sentido – diz o velho voltando a olhar para o nada.
- O que olha? – pergunta a garota.
- O nada. Há muito a se ver no nada. Olhe – diz o velho apontando para o nada.
A garota olha na direção que ele apontou.
- Nada vejo – diz a garota.
- Sim, nada se vê. Essa é a verdade absoluta – diz o velho continuando a olhar para o nada.
- Estou entediada – diz a garota.
O velho com um rápido movimento volta a apontar para o nada. A garota de novo olha para direção apontada. O velho continuando a apontar para o nada, começa aos poucos a mover seu dedo em outra direção, a da garota, que o olha fixamente. O velho, então, pára o dedo apontando para o nariz da garota. A ponta de seu dedo a toca. A garota continua a olhá-lo.
- De onde você veio? – pergunta o velho.
- Lugar algum – responde a garota.
- Para onde você vai?
- Lugar nenhum – responde a garota, agora segurando o dedo do velho, que continua tocando seu nariz.
- Onde você está?
- Quem sabe? – retruca a garota, levantando a outra mão, tentando alcançar com o dedo o nariz do velho, sem realmente consegui-lo.
- Já estive em lugar algum, também em lugar nenhum, mas não tenho a mínima idéia onde estou – responde o velho, segurando o nariz da garota, puxando-o mais para perto para que a garota possa alcançar com o dedo o seu nariz.
- Eu odeio lugar algum! – exclama a garota, finalmente alcançando o nariz do velho. Ele que já soltara o nariz dela e voltara a só tocá-lo com a ponta do dedo.
- Lugar algum é extremamente alegre até o momento que você descobre onde está, assim se torna extremamente tedioso. Você acaba tendo que rumar para lugar nenhum.
- Verdade – responde a garota, empurrando o velho para trás com o dedo sobre seu nariz.
- Mas lugar nenhum pode ser pior.
- Não! – exclama a garota estarrecida.
- Sim, muito pior – reafirma o velho segurando o dedo da garota, impedindo o constante empurrão.
- Não! Não! Não!
- Sim, mas tudo depende de como você age. Quem sabe para você pode ser melhor!
- Por que é tão difícil?
- Porque ninguém ainda encontrou o caminho para lugar melhor. Se é que existe!
- Mas tem de existir!
- Assim, eu espero também. Talvez aqui – diz o velho, subindo seu dedo para a testa da garota.
- Ou talvez aqui – diz a garota descendo seu dedo até o queixo do velho.
- Talvez.
- Sim, talvez. O que devo fazer em lugar nenhum? – pergunta a garota.
- Você devia saber! – exclama o velho voltando com o seu dedo para o nariz da garota e empurrando o dela de volta para seu nariz.
- Mas não sei.
- Por onde posso começar? Sim, sim. Primeiro você tem de aprender o máximo possível. Mas preste atenção, todos que quererão te ensinar, só te ensinarão o que você não precisa saber. Aqueles que não nomearei, só querem lhe ensinar tudo aquilo que melhor lhes permitir controlá-la. Deve repugná-los o máximo possível!
- Mas você quer me ensinar coisas. Devo repugná-lo? – pergunta a garota, interrompendo o velho.
- Primeiro, foi você que perguntou. Segundo, não estamos em lugar nenhum. Logo, não posso agir como aqueles que estão lá. Não sabemos onde estamos e só podemos agir como aqueles que não o sabem. Então, posso continuar?
- Tarde demais, já estou a repugná-lo.
- E eu também a você.

Continua na Parte II

2 comentários:

André disse...

Daniel, achei este conto simplismente magnifico, você trabalha um parâlelo entre o real e o irreal, nos causa uma certa sensação de catarse se pensarmos como nossa vida não é "nada", parabéns....

Verdade em evidência disse...

Verdade em evidência; é que de fato para sabermos quem somos de fato é que temos que chegar ao cume do nada dentro de nós!!!