quinta-feira, 16 de agosto de 2007

A Queda

Capítulo I:
Parte I

Um garoto cai por uma imensidão vazia, olhando o nada que o cerca. Uma garota caindo na direção oposta, agarra-o e senta-se em seus ombros, cobrindo com suas mãos os olhos dele.
- Quem senta em meus ombros e cobre os meus olhos? – pergunta o garoto.
- Ninguém – responde a garota.
- Ninguém me acompanha nesta constante queda. Imagino quando haverá alguém para fazê-lo – diz o garoto, pensativo.
- Sim, ninguém acompanha-o nesta terrível queda. Sua horrível e interminável queda para todas as direções verticais e horizontais do vazio eterno. Vazio frio e absoluto! – exclama a garota, retirando as mãos dos olhos dele, estes que se fecham com essa ação, e abrindo-as no ar de modo trágico. - Ó, o horror, o horror! – exclama com um profundo pesar.
- Sim, é ruim – diz o garoto com certa indiferença, mantendo seus olhos fechados.
- Então, por que está caindo desta vez? – pergunta a garota, voltando com suas mãos para os olhos dele.
- Desta vez! – exclama o garoto revoltado. - Esta é a primeira vez que caio – afirma com certa determinação, mas acaba ficando depois em dúvida.
- É claro, claro – responde a garota com certa ironia. – Por que está então caindo desta primeira vez?
- Caio por essa imensidão eterna, simplesmente porque isso é só o que sei fazer – responde o garoto, colocando suas mãos sobre as mãos da garota que cobrem seus olhos. - Desde que descobri que podia cair, só isso tenho feito.
- Não sabe voar? – pergunta a garota, tentando levantar suas mãos, mas não conseguindo devido as mãos do garoto que as pressionam fortemente.
- Não, não sei – responde o garoto tristemente.
- Nem para os distantes picos gelados onde o ar como o tempo reina numa rarefeita solidão, ou sobre os vastos mares azuis que descem para o total desconhecido onde nascem magníficas e complexas criaturas que esporadicamente se apresentam em sua superfície para esporádicos voadores passantes, ou pelas escuras nuvens trovejantes onde pujantes cargas de energia brincam entre si em completa indecisão, ou rente extensas colinas verdes cobertas por uma eterna densa grama onde se perdem os mais inteligentes seres? – pergunta a garota com entusiasmo, conseguindo mover um pouco suas mãos para frente, tentando fazer suntuosos gestos. Todos impedidos de atingir seu completo e perfeito desempenho pelas mãos do garoto.
- Não, já disse que não sei. Não me pergunte de novo – responde o garoto irritado.
- Não sabe andar?
- Não.
- Nem pelas isoladas praias de litorais infinitos, ou pelas densas verdes florestas repletas de gigantescas árvores de idades há muito esquecidas, ou pelas movimentadas ruas banhadas na escuridão da noite por múltiplos néons de diversas cintilantes cores, ou por vastos corredores de infinitas alturas repletos de livros à luz de velas...
- Não – resmunga o garoto, interrompendo-a.
- Nunca soube?
- Não.
- Então, cai da onde?
- Caio do nada – responde o garoto irritado, retirando suas mãos das mãos dela. - Por que o interrogatório? Por que ninguém não me deixa cair pelo vazio sossegadamente? – pergunta cansado.
- Tédio. Não tenho mais nada o que fazer – diz a garota olhando para o nada, mantendo as mãos, mesmo agora livres, sobre os olhos do garoto. – Então, por que cai do nada?
- Você não vai parar, não? – pergunta o garoto irritado.
- Não – responde a garota sorrindo.
- Vou responder, então – diz colocando suas mãos sobre as pernas da garota que cobrem seus ombros. - Vê se me entende para não ter de me perguntar de novo. Há muito o nada não foi nada. Não que tenha sido alguma coisa, mas mesmo sendo sempre nada, pelo menos por um tempo, que nunca ocorreu, não foi só nada.
- Foi alguma outra coisa?
- Sim e não. O nada foi algo que era nada, mas parecia com alguma coisa que não era nada, mesmo o sendo.
- Você está inventando tudo isso, não? Só para ter algo para me responder – diz afastando um pouco as mãos dos olhos dele.
- Eu posso calar a boca. Quer? – pergunta meio irritado, afastando as mãos um pouco das pernas dela.
- Não, continue. Só não espere que eu o leve a sério! – exclama reaproximando suas mãos sobre os olhos dele.
- Onde eu estava? – pergunta reaproximando suas mãos sobre as pernas dela.
- No nada, acredito.
- A questão é bem simples. Antes não caía, porque no nada que era alguma coisa, mesmo sendo nada, tinha um chão sólido.
- Só um chão?
- Não, tinha outras coisas como paredes, pessoas, paisagens...
- Verdes colinas e ruas à noite banhadas em néon?
- Em algum lugar, provavelmente. Mas deixe eu continuar. Nesse nada por um tempo tudo pareceu-me muito sólido e existente. Não sabia realmente que estava no nada. Andava por muitos lugares e algumas raras vezes até chegava a voar.
- Ó mentiroso! Então, já chegou a andar e voar. Respondera não, só por odiosa comodidade?
- Não, não minto para ninguém. Nunca andei ou voei, só pensei tê-lo feito quando na verdade estava parado no mesmo lugar. Só notei-o mais tarde quando o fatídico me ocorreu!
- Ó, o horror, o horror! – exclama a garota, levantando tragicamente suas mãos para o alto, mas voltando-as rapidamente para os olhos do garoto, logo após acabar seu espetáculo trágico.

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